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Deborah Osberg: Para lá da Desobediência
Autor
Belinda Levez
Publicado
10/2024
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Para lá da Desobediência: Da Crítica ao Expressionismo Abstrato
Deborah Osberg, uma artista e académica sul-africana/britânica, nasceu durante o regime do apartheid e tornou-se jovem adulta durante o seu auge (nas décadas de 1970 e 1980). Os seus pais, embora se considerassem não racistas, foram, contudo, cúmplices na manutenção do sistema do apartheid. Ao crescer numa família conservadora, ela sempre desafiou as regras, mas inicialmente via a sua brancura como um privilégio e, tal como os seus pais, não questionava o sistema do apartheid. Isto mudou quando foi para a universidade, onde rapidamente se politizou. O percurso pessoal de Deborah — de uma artista infantil promissora a uma figura proeminente tanto na academia como nas artes — é profundamente moldado pelas suas experiências na África do Sul do apartheid, pelo seu amor pelos animais e pela natureza, e pela sua exploração da filosofia da educação.

Talento Artístico Precoce e Reconhecimento
Deborah descobriu a sua paixão pela arte aos sete anos. Incentivada pelos pais, começou a ter aulas de arte sob a orientação de Margueritha Prins. A sua primeira grande conquista ocorreu nesse mesmo ano, quando ganhou um prémio de desenho e pintura numa exposição de arte infantil na "Rand Easter Show" da Witwatersrand Agricultural Society, uma das maiores exposições anuais do país na época. Nos anos seguintes, continuou a ganhar prémios de arte nesta exposição, obtendo uma menção na imprensa local aos 9 anos. Embora este reconhecimento precoce a tenha estabelecido como uma jovem artista promissora, Deborah, que também era apaixonada por animais desde cedo, insistiu em mudar o seu foco para a equitação na adolescência, alcançando um reconhecimento considerável também nessa área. Apesar da sua obsessão pelos cavalos, nunca abandonou a arte, que permaneceu como um interesse secundário. A escola, no entanto, tornou-se uma fonte constante de frustração para Deborah, particularmente a sua aversão à autoridade — ela detestava que lhe dissessem o que fazer, e desenvolveu uma gaguez, que foi motivo de grande preocupação para os seus pais e professores. Acabou por frequentar uma escola para "alunos resistentes", onde, com suficiente liberdade académica, se destacou academicamente e mais tarde licenciou-se em zoologia, com o objetivo de se tornar veterinária. Embora tenha percebido rapidamente que queria mudar o seu curso para belas-artes, foi desencorajada a fazê-lo, sendo-lhe dito que a arte não tinha perspetivas de carreira viáveis.
Vida no Deserto do Namibe e Regresso à Zoologia
Após licenciar-se em Zoologia, no final da década de 1970, Deborah procurou escapar aos limites da vida urbana e aceitou um cargo em Gobabeb, uma estação de investigação ecológica, nas profundezas do deserto do Namibe, no que era o Sudoeste Africano (atualmente Namíbia). Durante dois anos, viveu primeiro numa tenda, depois numa caravana num leito de rio seco, onde a natureza bruta e o trabalho de campo científico "real" reacenderam o seu interesse pela zoologia e a inspiraram a regressar à academia para concluir um mestrado em zoologia. Esta busca académica levou-a a trabalhar em reservas naturais sul-africanas e combinou o seu profundo amor pelos animais com os seus crescentes interesses científicos.

Transição para a Educação e Desafios no Apartheid na África do Sul
Na década de 1980, Deborah aceitou o seu primeiro cargo de docente na Universidade de Venda, uma universidade para estudantes negros situada num dos muitos "bantustões" negros da África do Sul durante a era do apartheid. Aqui, a crueza das disparidades educativas entre as populações negra e branca na África do Sul tornou-se evidente para ela pela primeira vez: ela tentava lecionar cursos de nível universitário a estudantes negros pouco instruídos e empobrecidos, provenientes de comunidades rurais (e em muitos casos, tribalmente tradicionais), que viviam em alojamentos rudimentares sem eletricidade. Naquela época, a maioria dos docentes eram brancos e oriundos de meios mais privilegiados. Apesar da divisão cultural, Deborah desenvolveu uma forte ligação com os seus alunos e ganhou uma consciência mais profunda das desigualdades raciais no sistema educativo da África do Sul.
Após a queda do apartheid no início da década de 1990, Deborah foi recrutada para a Universidade de Witwatersrand, uma universidade de elite, anteriormente branca, em Joanesburgo. O seu objetivo era usar a sua experiência em Venda para melhorar a educação dos estudantes negros num ambiente de elite. Embora tenha desenvolvido um curso de sucesso que foi posteriormente publicado, sentiu-se cada vez mais desiludida com os esforços da instituição em moldar os estudantes negros segundo modelos brancos de sucesso. Quando, no final da década de 1990, o primeiro vice-reitor negro da universidade, William Makgoba, foi destituído por ser demasiado radical, Deborah decidiu sair e tirar um ano sabático para repensar as possibilidades para a sua carreira.
A Tirar um Doutoramento e a Abraçar a Arte Novamente
Em 2000, Deborah mudou-se para o Reino Unido, onde tirou um doutoramento em filosofia da educação, explorando temas de poder, conhecimento e democracia. Aqui, conseguiu canalizar as suas frustrações com os modelos "ocidentais" de autoridade para uma crítica focada aos sistemas de poder estabelecidos. Fortemente influenciada pelos filósofos Michel Foucault e Jacques Derrida, o trabalho académico de Deborah examinou as complexidades da interseção entre a educação e as estruturas de poder. Apesar do seu foco académico, nunca abandonou a arte. Continuou a criar, produzindo pinturas figurativas a preto e branco que frequentemente incorporavam formas humanas.
Em 2020, Deborah mudou-se para Portugal, onde adotou um estilo de vida mais sustentável, cuidando de uma floresta de montanha autóctone e vivendo com cabras, ovelhas, galinhas, cães e gatos. Esta mudança foi parcialmente impulsionada pelo desejo de escapar ao conservadorismo e à xenofobia do Reino Unido pós-Brexit, bem como pela sua crescente desilusão com o uso indevido do poder nas instituições académicas.
Um Novo Capítulo na Arte Abstrata
Em Portugal, Deborah reconectou-se com a sua arte a um nível mais profundo. Inscreveu-se no curso de arte "Creative Visionary Programme" (CVP) de Nicholas Wilton, que a introduziu à arte abstrata e a novas técnicas artísticas. Embora inicialmente tenha tido dificuldades com o meio abstrato, vendeu as suas primeiras pinturas no prazo de um ano a um vizinho, o que a encorajou a continuar a seguir o seu ofício. Deborah juntou-se rapidamente a um coletivo de artistas, onde o seu trabalho ganhou maior reconhecimento, vendendo várias peças na sua primeira exposição coletiva.

A sua arte, influenciada pelas suas experiências no apartheid na África do Sul, pela filosofia da educação e pela natureza, incorpora frequentemente formas orgânicas como animais, formas celulares e micélio. Uma peça inicial feita em 1987, com uma composição circular em pastéis, contém elementos de um cavalo, cão, humano e rato. A série "Dialogues" de Deborah explora as complexidades da comunicação, enquanto a sua série "Farm Life" reflete a realidade crua e sem filtros da vida na quinta, que muitas vezes não é bonita. Para Deborah, a arte é uma busca profundamente intelectual — uma forma de lidar com conceitos e emoções difíceis, tanto políticos como éticos.
Técnicas Artísticas e Inspirações
Deborah trabalha principalmente com acrílicos, mas experimenta frequentemente pigmentos naturais provenientes da terra que a rodeia. Inspirada por um dos seus voluntários de "workaway", começou a incorporar carvão, areia, terra e ferrugem nas suas pinturas, usando materiais como casca de árvore de florestas antigas e textos académicos rasgados como parte das suas composições. Os seus anos na academia continuam a influenciá-la, com palavras escritas a encontrarem frequentemente o seu caminho para a sua arte.

Ela constrói as suas composições em camadas, permitindo que o processo se desenrole naturalmente na tela. Embora Deborah admire artistas contemporâneos como Picasso (o seu herói), as suas inspirações recentes incluem David Pearce e Liane Merz, ambos influenciando a sua abordagem de forma livre à forma e composição.
O Legado do Percurso Artístico e Académico de Deborah
Com quatro décadas na academia e uma carreira em ascensão na arte, o percurso de Deborah é um de constante reinvenção. O seu trabalho — seja na sala de aula ou na tela — sempre foi sobre ultrapassar limites e questionar normas estabelecidas. Para ela, a arte é uma forma de pensar profundamente, um processo de resolução criativa de problemas que lhe permite expressar ideias para além das palavras. A palavra "além" (beyond) tem tido um papel importante na sua vida, com vários dos seus textos académicos a usarem a palavra "beyond" nos seus títulos.
À medida que continua a explorar a interseção entre arte, filosofia e natureza, o trabalho de Deborah permanece um testemunho da sua dedicação vitalícia à exploração intelectual e criativa. Da África do Sul da era do apartheid às paisagens pacíficas de Portugal, a sua história é uma de resiliência, transformação e uma busca incessante pela compreensão do mundo através da arte, da filosofia e da desobediência generalizada à abstração focada.
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