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Don’t Look: João Marques confronta os pontos cegos de Lisboa através da arte
Autor
Luc Levez
Artista em Destaque
João Marques
Publicado
08/2025
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“Quando me mudei para Lisboa, fiquei chocado”, recorda João. “Venho de uma cidade pequena onde não há sem-abrigo. Ao início, não fiz nada. Mas, recentemente, dei por mim a vê-los — a vê-los realmente — e uma ideia começou a ganhar forma.”

Essa ideia começou de forma simples: captar as tendas dos sem-abrigo ao longo do rio, perto da estação de Santa Apolónia, a poucos metros do ponto de acostagem de navios de cruzeiro repletos de turistas. As tendas, rasgadas e remendadas, vividamente decoradas com cores e símbolos de futebol, tornaram-se mais do que abrigos — contavam histórias de resiliência, deslocação e esperança.
“Eu estava apenas sentado a desenhar quando um homem de Marrocos perguntou: ‘Podes pintar a minha tenda?’ Isso mudou completamente o projeto. De repente, já não eram apenas pinturas de tendas — eram as próprias tendas. Tornaram-se obras de arte vivas.”

Mas Don’t Look não é apenas sobre tendas. É uma meditação sobre a invisibilidade. João começou a recolher folhetos turísticos descartados, promessas brilhantes das maravilhas de Lisboa, que jaziam ao lado das tendas. A ironia era marcante: estes folhetos mostram uma cidade cheia de vida e beleza — mas nunca mostram esta outra Lisboa, uma cidade que existe a poucos passos de distância, ignorada por quase todos.
“As pessoas sabem que estas tendas estão lá, mas desviam o olhar”, diz ele. “Algumas sentem-se impotentes, outras com medo, outras culpadas. Esse ato de olhar — ou de não olhar — tornou-se central no projeto.”
O projeto já evoluiu para além de pinturas e colagens. João idealiza uma instalação imersiva, usando as próprias tendas, não higienizadas ou encenadas, num ambiente de galeria. O objetivo não é o voyeurismo ou a caridade. Pelo contrário, é o confronto: forçar os espectadores a reconhecer uma realidade que muitas vezes escolhem ignorar.

“Quero que seja desconfortável”, explica João. “Deve cheirar, deve parecer real. Trata-se de colocar algo à frente das pessoas sobre o qual elas não querem falar.”
A sua abordagem é deliberada, ética e colaborativa. As conversas com os residentes das tendas orientam o trabalho, tornando cada peça não apenas uma representação, mas uma parceria. Ele também está a consultar um psicólogo para garantir que o projeto beneficie as pessoas envolvidas de formas que vão além da estética.

“Já existem voluntários que trazem comida”, nota João. “Mas isso não resolve o problema maior. Estas pessoas não precisam apenas de refeições — precisam de habitação, dignidade, oportunidade. A arte não pode resolver tudo, mas pode dar voz e visibilidade.”
O projeto também toca nos desafios mais amplos enfrentados por migrantes e profissionais deslocados, pessoas cujas qualificações e histórias são tornadas invisíveis no seu novo ambiente. As barreiras sistémicas — sem casa, sem conta bancária, sem morada — prendem-nas num ciclo do qual parece impossível escapar. João espera que o seu trabalho desperte consciência, empatia e, talvez, ação.
Don’t Look não é um projeto de caridade. Não é uma experiência social. É um confronto com os pontos cegos da sociedade e um convite a considerar o que significa ver verdadeiramente outro ser humano. Através de tendas pintadas, colagens e do próprio tecido das ruas de Lisboa, João pergunta-nos: se olharmos, agiremos?
“O projeto estará completo”, diz ele, “quando estas pessoas já não precisarem de tendas. Até lá, as tendas, a arte, a cidade — todas falam. Elas exigem atenção.”
Numa cidade de praças soalheiras e vistas perfeitas de postal, o Don’t Look de João recorda-nos que as histórias mais urgentes são, muitas vezes, aquelas que escolhemos não ver. E talvez, através da arte, essa escolha possa ser desafiada.
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