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Entrevista com João Marques – Primeira Parte: Da Caminhada à Inspiração
Autor
Luc Levez
Artista em Destaque
João Marques
Publicado
05/2025
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A Transformação de Lixo em Arte
Ao visitar o atelier do João, deparei-me com uma peça familiar — uma que já tinha visto antes —, mas algo nela tinha mudado. Desta vez, uma garrafa vermelha vibrante destacava-se nitidamente contra o esboço rugoso e texturado da casca de uma árvore. Não estava lá antes.
“Caminhar faz parte do meu processo”, explica o João. “É uma forma de pensar e criar. Um dia, estava a caminhar de casa para o atelier e vi algo que me deixou realmente perturbado — alguém tinha espetado uma garrafa de plástico numa árvore. Detesto ver lixo na natureza.”
Em vez de a deitar fora, o João trouxe a garrafa para o seu atelier e colocou-a diretamente na obra. “É a mesma garrafa”, diz ele. “Quero criticar as pessoas que fazem este tipo de coisas, mas também há algo de poderoso em usar o objeto real que encontrei. Cria uma ligação entre o ambiente e a obra de arte.”

Um contraste de materiais
“Os elementos naturais devem ser feitos da natureza”, diz o João. “Não quero usar sintéticos ou acrílicos quando pinto coisas como árvores ou terra. Para isso, uso carvão — ou até a própria terra, porque existe uma relação entre a substância e o tema. Não faz sentido para mim pintar algo natural com acrílico.”
Em contraste, a garrafa de plástico é feita pelo homem. “Por isso é que a pintei com acrílico vermelho”, explica. “Faz sentido dessa forma. Pintei-a — para enfatizar esse contraste.”
Inspiração através da frustração
Originalmente, a garrafa vermelha não fazia parte da peça. O que começou como uma caminhada comum — uma rotina diária para o João — mudou inesperadamente o rumo do seu trabalho.
Este momento de descoberta realça a fluidez do processo criativo do João. A sua arte não segue um caminho definido; evolui naturalmente, moldada pelos momentos inesperados que surgem ao longo do seu dia. A frustração provocada por encontros como o da garrafa descartada na árvore não desaparece — torna-se combustível para a sua criatividade, despertando novas ideias e conferindo à sua obra urgência e propósito. Tal como as suas caminhadas, a arte do João está aberta à mudança, sempre em movimento e impulsionada pela sua ligação ao mundo que o rodeia.
O João está ansioso por continuar esta série, procurando objetos descartados que inspirem novas direções. No entanto, sublinha que a ligação entre o lixo encontrado e a obra de arte deve parecer sempre natural. Para ele, não se trata de reutilizar resíduos — trata-se de captar a essência de algo inesperado e deixar que a arte evolua de uma forma autêntica e significativa.
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